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domingo, 5 de abril de 2009

Grandes brasileiros vivos – Dadá Maravilha

Maravilha de sonho. Eu era pequeno, comprava balas em frente à minha casa, quando assisti a uma cena que ficou na minha memória: o dono do armazém pendurava na parede o pôster do Internacional, bicampeão brasileiro. As pessoas no estabelecimento aplaudiram o gesto. Em meio às palmas, parei diante da foto, admirei-a sem pressa. Um timaço: Manga, Figueroa e Falcão. Mas para mim nenhuma estrela brilhava mais que Dario, o Dadá Maravilha.


Quando Dadá Maravilha saía do túnel, o Beira-Rio eu já imaginava o goleiro adversário buscando a bola no fundo das redes. Ele tinha um jeitão de anti-herói sendo herói de milhares de torcedores. Pudera, era o rei do marketing pessoal. Nunca dizia “eu”, sempre se referia a si mesmo na terceira pessoa. Talvez fosse o único brasileiro a poder fazer isso sem cair no ridículo. Dadá prometia gols, a galera lotava o estádio para vê-lo pagar as promessas. Cumpriu a maioria. Fez mais: batizou os seus gols de nomes como Beija-flor e Mata-mengão.


Certa vez, defendendo o Atlético Mineiro, prometeu o gol Holocausto contra o arquiinimigo Cruzeiro. E, como promessa é dívida, Dario fez um gol sem ângulo da linha de fundo. O Mineirão veio abaixo em preto e branco. Também foi o inventor de coreografias para festejar o doce balançar das redes. Fazer gols para ele não era problema, era diversão. E nessa brincadeira foi por três vezes o artilheiro do Brasileirão.


Pré-socrático

Dadá Maravilha é o mais famoso filósofo da bola no período pré-socrático. Bem antes de o doutor Sócrates usar o calcanhar e frases de efeito, ele já afirmava que para toda problemática existia uma solucionática. Vá lá, o português foi para o beleléu, mas o que vale é o lado folclórico. Eram essas frases aparentemente ingênuas que o tornaram um imortal no anedotário popular. Não dá para esquecer pérolas como “com Dadá em campo, o placar não fica em branco” ou a conclusiva “somente três coisas param no ar: beija-flor, helicóptero e Dadá Maravilha”.


E, quando o acusavam de não ter intimidade com a gorduchinha, retrucava, moleque: “O Dadá se preocupou tanto em fazer gols que não teve tempo para aprender a jogar futebol”. A burocracia passava longe das suas palavras e dos seus pés. Dario era meio Oscarito, meio Pelé: maravilhoso sempre. Atualmente, o mestre do cabeceio ensina as manhas do esporte bretão às divisões de base do Atlético Mineiro, à cata, talvez, de um substituto à altura na grande área. Ele não fez fortuna, mas, ao contrário dos seus marcadores, não passa trabalho.


Naquele dia, a tarde foi de Beira-Rio lotado, sinal-da-cruz ao entrar em campo, cabeceio indefensável, delírio da torcida: eu era o Dadá Maravilha. Mas, quando acabou o jogo no campinho de terra, restaram apenas a camisa vermelha com o número 9 caprichosamente costurado às costas pela tia Bina e um punhado de balas num embrulho. Obrigado, Dadá, por essa maravilha de sonho.


Grandes brasileiros vivos – Dorival Caymmi

À preguiça e à paz universal. E viva Dorival Caymmi. Meu rei, pegue a rede, pendure na sala e jogue um sorriso nos lábios. Pronto, agora você pode entrar no mundo de um dos mais ilustres brasileiros de todos os tempos: Dorival Caymmi.

O universo musical de Caymmi é povoado por pescadores, mulheres dengosas, homens valentes, sincretismos e preguiça, muita preguiça. É dele Saudade de Itapoã, a música mais preguiçosa que conheço: “Coqueiro de Itapoá, coqueiro/ Areia de Itapoá, areia/ Morena de Itapoá, morena...”, diz a letra ao som de uma viola macambúzia. Por aí você tira o resto.

A preguiça de Dorival Caymmi gerou histórias folclóricas. Uma das mais conhecidas é a de que Dorival levou 12 anos para terminar a música Acalanto, uma cantiga de ninar para sua filha Nana. Num episódio mais recente, Jô Soares convidou-o para participar do seu programa de entrevistas e só conseguiu a muito custo (chegou a promover uma campanha) levá-lo ao estúdio, depois de esperar anos a fio. O motivo você sabe: preguiça.

Gostar da obra de Dorival Caymmi é ser apaixonado pelo mar, por poesia e ter absoluta certeza de que nada é para já. Para que fazer agora se dá pra deixar para amanhã? Essa é a lógica camminiana. A música dele é a síntese perfeita da brasilidade: dengo e mandinga, cheiro e sensualidade.

Caymmi deixou para sempre a sua marca na cultura baiana assim como o outro baiano-mor Jorge Amado, e Pierre Verger e Carybé (baianos emprestados, respectivamente, da França e Argentina)

Diferentes azuis

Este bom baiano é um profundo conhecedor das mulheres, que sempre ocuparam lugar privilegiado em sua obra. Prova disso são canções como Modinha para Gabriela, Lá vem a baiana, Francisca Santos das Flores e Marina (imortalizada na voz de Dick Farney). Dorival soube captar toda a manemolência, a brejeirice e a sensualidade do universo feminino. Segundo declarou, sem a mulher não existiria a canção.

E a Bahia é a sua maior fonte de inspiração. Ninguém soube cantar a Bahia como Caymmi. As suas igrejas, as suas pretas do acarajé, os seus terreiros de candomblé, as suas festas de rua, os seus sobrados, os diferentes azuis do seu mar. Por causa dela, chorou de saudade em lugares distantes, sempre com muita poesia e voz grave. Se a Bahia tem um jeito que nenhuma outra terra tem, ele tem um jeito único de cantar a Bahia. A Bahia tem muito a agradecer a Dorival Caymmi. E o Brasil também.

Segundo contam foi ele quem ensinou Carmem Miranda a revirar os olhos e a movimentar as mãos para americano ver em O que é que a baiana tem?, outro clássico dele. E mais: assim como Noel Rosa, inaugurou um modo brasileiríssimo de compor e cantar. Desse frondosa árvore chamada Dorival Caymmi descende todo o primeiro time da MPB: João Gilberto, Caetano, Gal, Gil, Bethânia, Paulinho da Viola (perceba as semelhanças entre Para um amor no Recife e Dora), Djavan e, é claro, Nana, Dori e Danilo.

Dorival é uma das maiores alegrias e, ao mesmo tempo, uma das maiores tristezas de minha vida. Alegria por ele ser brasileiro como eu. Tristeza por nunca tê-lo visto ao vivo, em um palco. Dorival Caymmi é um octogenário que continua sendo aquele menino preguiçoso sentado de cócoras a admirar as jangadas saírem para as águas salgadas de Itapoã.

Por isso, sempre que levanto um copo para brindar, digo (os meus amigos bem sabem):
- À preguiça e à paz universal. E viva Dorival Caymmi!